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Expansão de 18,9% na indústria criativa da Bahia abre caminho para afroempreendedores, mas especialista alerta para desafios estruturais

Foto: divulgação

O aquecimento da economia criativa no mês de fevereiro, impulsionado pelo Carnaval, encontra na Bahia um terreno particularmente fértil. Dados do “Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil”, da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), mostram que o estado registrou uma expansão média de 18,9% na área criativa, com crescimento de 8,8% nos vínculos empregatícios do setor de Cultura.

O desempenho baiano contrasta com o cenário nacional de retração, avaliado em -7,2% no mesmo período. Segundo o relatório de 2025 da Firjan, a Bahia mantém a quinta posição no ranking de participação de profissionais da Cultura na indústria criativa brasileira, ao lado de Alagoas, que também apresentou variação positiva (0,8%) no triênio pré-pandemia.

Crescimento econômico e desigualdade estrutural

Apesar dos números animadores, especialistas apontam que a expansão do setor não tem se traduzido em ganhos equitativos para todos os participantes da cadeia produtiva. A fundadora da startup Afrocentrados Conceito, Cynthia Paixão, alerta para o que classifica como “vulnerabilidade invisível” que atinge especialmente os empreendedores negros.

“O estudo mostra uma Bahia rica em criatividade, mas muita coisa mudou desde 2017. Embora a indústria gere bilhões em receita, o retorno para o empreendedor, especialmente o afrodescendente, ainda é fraco, o que contribui para o cenário de subsistência. Esse produtor é contabilizado em números, mas segue pouco assistido e sem formação para escalar sua influência”, afirma.

Para a CEO da Afrocentrados, os dados positivos mascaram a falta de suporte real para transformar o talento da comunidade negra em autonomia financeira sustentável. “O que deveria empoderar a cena criativa, principalmente com a riqueza cultural da comunidade negra, tornou-se um cenário de vulnerabilidade onde as estatísticas não refletem a realidade do pequeno produtor”, complementa.

Hub digital surge como alternativa de aceleração

Diante desse diagnóstico, Cynthia Paixão apresenta uma proposta para corrigir a distorção histórica na distribuição dos benefícios gerados pela economia criativa. À frente da Afrocentrados Conceito, startup que movimenta mais de meio milhão de reais com cultura autoral em Salvador, a empreendedora lança o primeiro hub digital de impacto e inovação afro do estado.

A iniciativa, batizada de Afrocentrados Hub, consiste em um marketplace exclusivo para marcas negras, desenvolvido em parceria com a plataforma WBuy. A ferramenta está em fase de adesão e permitirá que a estética, a criatividade e a identidade baiana alcancem consumidores em qualquer lugar do mundo, rompendo as barreiras geográficas que frequentemente limitam o pequeno produtor negro.

“Queremos aproveitar o período aquecido de pré e pós-Carnaval para impulsionar essas marcas, de modo que o retorno seja benéfico para a escalada dos negócios e da comunidade afroempreendedora de Salvador. É uma das formas que encontramos de empoderar os negócios e verdadeiramente pertencer a essa expansão da Indústria Criativa na Bahia”, explica a CEO.

Trajetória de autonomia e resistência

Com cinco anos de atuação dedicados ao fortalecimento de marcas autorais, Cynthia Paixão destaca que a jornada da Afrocentrados tem sido trilhada de forma independente. Sem o suporte de editais governamentais ou aportes de instituições privadas, a startup sobreviveu e cresceu por meio do autofinanciamento e da rede de apoio mútuo entre mulheres e criativos.

“São anos construindo pontes no braço, sem auxílio externo, o que torna cada avanço um marco de resistência. Entendemos que o afroempreendedor requer formação para escalar, suporte tecnológico e uma rede que gere impacto real em suas contas”, afirma.

A postura autônoma ganhou contornos de inovação tecnológica ao conectar a Bahia ao fluxo global da economia criativa, que segundo a Unesco movimenta US$ 2,25 bilhões anuais. A nova fase aposta na integração phygital (físico + digital) como pilar de sustentabilidade, unindo o ambiente virtual à loja física localizada no piso L2 do Shopping Bela Vista, que chega com estrutura reforçada no atendimento, gerência e coordenação.

Formação e aceleração como ferramentas de transformação

A Afrocentrados Hub se consolida como um canal estruturado de multicomercialização e visibilidade, reunindo empreendimentos autorais e ampliando sua atuação com a chegada de mais três novas marcas à plataforma. O objetivo é profissionalizar, acelerar e conectar os negócios negros a um mercado real, usando tecnologia, formação e rede como ferramentas de autonomia financeira.

“A ‘Afrocentrados Hub’ nasce para corrigir uma distorção histórica da economia criativa: a de que o talento negro sustenta estatísticas, mas não acessa escala. Criatividade sem estrutura vira sobrevivência. Nosso objetivo é profissionalizar, acelerar e conectar marcas negras a um mercado real, usando tecnologia, formação e rede como ferramentas de autonomia financeira”, detalha Cynthia.

Perspectivas para o setor

A indústria criativa atrai excelentes profissionais, mas muitos se perdem no meio do caminho ou fecham as portas por não verem seus negócios escalando, mesmo diante do crescimento do cenário local, nacional ou mundial. Para a CEO da Afrocentrados, a Bahia é prova de que o cenário já trouxe bons resultados, mas é necessário garantir que esses resultados cheguem à base da cadeia produtiva.

“Os números mostram crescimento, mas crescimento sem equidade não é desenvolvimento. A Bahia pulsa criatividade negra, movimenta a economia e sustenta estatísticas positivas, mas ainda falha em transformar esse potencial em autonomia financeira para quem está na base da cadeia. A Afrocentrados e o nosso Hub nascem justamente para romper esse ciclo: sair da sobrevivência para a escala. Nosso compromisso é transformar talento em negócios sustentáveis e a cultura, que não para de escalar profissionalmente na Bahia, em oportunidade para a comunidade afrobrasileira”, conclui Cynthia Paixão.

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