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Estimativa aponta que 27 milhões de brasileiros convivem com enxaqueca sem diagnóstico formal

enxaqueca
Foto: Pexels

Levantamento inédito revela desigualdades regionais e sociais no acesso ao tratamento e mostra que a doença ainda é subestimada no país

Um levantamento inédito realizado pela farmacêutica Teva Brasil, em parceria com a Associação Brasileira de Cefaleia em Salvas e Enxaqueca (ABRACES), trouxe à tona um dado preocupante. Enquanto 23 milhões de brasileiros têm diagnóstico confirmado de enxaqueca, outros 27 milhões podem apresentar os sintomas da doença sem nunca terem recebido um diagnóstico médico. A pesquisa, coordenada pela consultoria Imagem Corporativa, também avaliou o impacto da condição na vida pessoal e profissional dos afetados.

A enxaqueca é uma doença neurológica crônica que exige acompanhamento contínuo, preferencialmente com um neurologista. No entanto, a realidade da maioria da população está longe do ideal. Muitos ainda enfrentam estigmas e recorrem à automedicação como forma de alívio imediato. Segundo o estudo, em uma escala de dor de zero a dez, 35% dos diagnosticados afirmam sentir a pior dor imaginável. Entre os não diagnosticados, esse percentual é de 26%. A dor média registrada foi de 5,9, e cada crise dura, em média, 15 horas. Durante os episódios, atividades como trabalho, tarefas domésticas e estudos ficam severamente comprometidas.

Mulheres são as mais afetadas, mas homens aparecem na subnotificação

A pesquisa confirmou que a enxaqueca atinge majoritariamente as mulheres. Elas representam 75% dos casos diagnosticados, quase o triplo da proporção masculina. Entre aqueles que apresentam sintomas mas não têm diagnóstico, as mulheres ainda são maioria, com 63%. Porém, a participação dos homens cresce de 25% para 37% nesse grupo, o que indica que a doença pode estar subdiagnosticada entre eles. Outro dado relevante é que 56% dos indivíduos sem diagnóstico têm até 39 anos.

O presidente da ABRACES, doutor Mario Peres, explicou que a maior incidência entre as mulheres está relacionada a variações hormonais, especialmente as oscilações de estrogênio ao longo da vida fértil. Essas alterações influenciam diretamente a atividade cerebral e a sensibilidade vascular, tornando as crises mais intensas e frequentes. Além disso, fatores como estresse, sobrecarga mental e pouco descanso também contribuem para o aumento dos episódios.

Região Nordeste concentra maior taxa de subdiagnóstico

A análise regional mostrou que o Nordeste lidera a falta de diagnóstico, com 35% dos casos sem confirmação clínica. O Sudeste apresenta a maior proporção de diagnosticados, 45%, ligeiramente acima da média nacional de 43%. Um dos membros da ABRACES, Otávio Franco, afirmou que esses números podem refletir dificuldades estruturais, como acesso limitado a serviços de saúde e a especialistas, o que prejudica tanto o diagnóstico quanto o registro adequado da doença.

Classe social e raça influenciam no acesso ao cuidado

O estudo também revelou um perfil socioeconômico preocupante entre os não diagnosticados. Mais de 80% pertencem às classes C, D e E. Desses, 35% recebem até um salário mínimo e 29% vivem com até dois salários mínimos. A incapacidade causada pela enxaqueca é maior entre homens, idosos, pessoas com renda de até dois salários mínimos e pessoas negras.

O gerente geral da Teva no Brasil, Roberto Rocha, destacou que a pesquisa expõe barreiras e desigualdades profundas. Ele defendeu a ampliação de ações voltadas ao diagnóstico e ao tratamento, especialmente no Nordeste e entre populações negras, com baixa escolaridade e baixa renda, uma vez que esses grupos dependem fortemente do SUS durante as crises. Rocha também reforçou a necessidade de fortalecer políticas públicas, capacitar profissionais, ampliar exames diagnósticos e garantir acesso a tratamentos de qualidade.

Impacto no trabalho e na vida social é significativo

Entre os diagnosticados, o levantamento mostrou que mais de 60% sentem queda frequente de produtividade no trabalho ou nos estudos e temem represálias profissionais. Homens de 30 a 39 anos compõem 64% desse grupo. Enquanto a perda de produtividade doméstica afeta mais mulheres e pessoas de 50 a 55 anos, a perda no ambiente de trabalho é mais sentida por homens na faixa dos 30 anos.

Utilizando a escala MIDAS, que mede o nível de incapacitação, a pesquisa apurou que 80% dos diagnosticados se sentem menos produtivos por até cinco dias em atividades domésticas. Quase a totalidade dos entrevistados relatou impacto nas rotinas de trabalho e estudo. A grande maioria também afirmou ter faltado a compromissos familiares, sociais e de lazer, além de registrar ausências no trabalho, na escola ou na faculdade.

Para Otávio Franco, a enxaqueca ainda é tratada de forma equivocada como uma simples dor de cabeça, quando na verdade pode ser incapacitante. Ele ressaltou que os resultados mostram a presença de estigmas sociais profundos, como medo de represálias e isolamento. Esses impactos variam conforme gênero, renda e raça. Franco defendeu a realização de campanhas de conscientização voltadas ao público em geral, incluindo familiares e gestores, para que todos compreendam o potencial incapacitante da doença e conheçam os tratamentos preventivos disponíveis.

Medo de represálias e automedicação são práticas comuns

O medo foi um dos sentimentos mais mencionados pelos pacientes. Cerca de 36% afirmaram que continuam trabalhando mesmo sentindo dor porque temem represálias. Essa foi a principal queixa relacionada ao ambiente profissional.

A pesquisa também identificou que 70% dos portadores de enxaqueca não fazem acompanhamento médico. Desses, 35% procuram o serviço público apenas durante as crises, e 11% recorrem a médicos do plano de saúde. Pessoas negras representam o maior contingente entre os que abandonam o tratamento, com mais de 30%.

Otávio Franco avaliou que o abandono do tratamento reflete desigualdades estruturais da sociedade. Ele apontou que classe social e raça evidenciam a necessidade de ampliar campanhas de conscientização, garantir acesso igualitário aos cuidados médicos e promover mais informação, inclusive entre empregadores.

Falta de informação e medo de efeitos colaterais dificultam tratamento preventivo

Quando questionados sobre as barreiras para o tratamento preventivo, os entrevistados citaram principalmente a falta de informação e o medo de efeitos colaterais. Mais de 40% dos que têm enxaqueca fazem apenas o tratamento agudo. A ausência de acompanhamento médico fica ainda mais evidente ao se constatar que 64% dos pacientes tomam medicamentos sem receita.

A maior parte dos diagnosticados não adota dieta controlada nem rotina de exercícios específicos para lidar com a doença. Os índices de incapacitação severa são maiores entre pessoas de 50 a 55 anos, enquanto a incapacitação média predomina entre os jovens de 18 a 29 anos.

O doutor Mario Peres reforçou que o estudo evidencia a necessidade urgente de disseminar informações sobre os sintomas da enxaqueca, especialmente entre homens, jovens e pessoas de baixa renda, para estimular a busca por diagnóstico e acompanhamento médico. Para os já diagnosticados, ele destacou a importância de fortalecer o acesso aos médicos e aos tratamentos preventivos, visando o controle da doença e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

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