
Uma queimadura doméstica pode transformar a vida de uma criança muito além da dor inicial. Em Angola, onde refeições ainda são preparadas em fogueiras dentro de casa e velas iluminam residências sem energia elétrica, os acidentes com fogo atingem principalmente os mais pequenos. É esse cenário que a ONG brasileira Kids Salvation pretende enfrentar com uma nova missão humanitária em Lubango, entre os dias 11 e 20 de setembro.
A expedição reunirá 28 profissionais de saúde voluntários, que custeiam as próprias passagens e hospedagem. No Hospital Central de Lubango, parceiro da iniciativa no país, a equipe realizará cirurgias reconstrutivas, atendimentos médicos e odontológicos, suporte a casos complexos e treinamento de profissionais angolanos.
Vulnerabilidade infantil em números
Dados de um estudo publicado em 2025 reforçam a urgência do trabalho. A pesquisa, que analisou pacientes atendidos no Hospital Especializado Neves Bendinha, em Angola, revelou que crianças de 0 a 5 anos representaram 64% dos casos de queimaduras no período estudado. Entre elas, os bebês de 1 ano foram os mais afetados, somando 26% dos registros. A maioria das lesões foi classificada como térmica e de segundo grau, evidenciando a exposição constante dos pequenos a riscos dentro de casa.
Segundo a Kids Salvation, a falta de infraestrutura em algumas regiões angolanas agrava o problema: a ausência de energia elétrica regular leva ao uso de velas e fogueiras no interior das residências, ampliando a incidência de incêndios.
Mais de 85 cirurgias já realizadas
Fundada em 2020 pelo cirurgião plástico mineiro Dr. Leandro Gontijo e pela enfermeira Pollyana Gontijo, a organização nasceu de uma história pessoal: Leandro sofreu uma grave queimadura na infância e, anos depois, especializou-se em cirurgias reparadoras. O casal se conheceu durante uma missão social na Bahia, experiência que os aproximou do trabalho voluntário.
Desde o início do projeto, a ONG contabiliza mais de 700 atendimentos odontológicos, 100 pediátricos, 40 dermatológicos, 300 clínicos e 85 cirurgias bem-sucedidas. A triagem dos pacientes é feita pela empresa angolana Viva Seguros, que avalia a gravidade dos casos e valida a participação na missão. Além de sequelas de queimaduras, a iniciativa atende pacientes com outras condições que exigem procedimentos reparadores, incluindo tumores.
Cuidado que continua após o retorno
Um dos pilares da Kids Salvation é garantir que o trabalho não termine com a volta da equipe ao Brasil. Durante as expedições, médicos brasileiros capacitam profissionais angolanos para o acompanhamento pós-operatório. Até agora, mais de 50 médicos e 200 enfermeiros já participaram dos treinamentos. A ONG também deixa no hospital medicamentos, curativos, anestésicos, próteses e equipamentos cirúrgicos.
Para pacientes albinos, a organização distribui ainda blusas, chapéus e óculos, ampliando o cuidado para além do ambiente hospitalar.
Meta de R$ 200 mil e planos de expansão
Cada missão custa cerca de R$ 200 mil, valor que cobre a estrutura necessária para atendimentos e cirurgias. Com a próxima expedição marcada para setembro, a Kids Salvation busca novos apoiadores para atingir a meta.
“É mais do que realizar procedimentos cirúrgicos: fundamos a Kids Salvation para construir uma rede de cuidado que permaneça mesmo após o retorno dos voluntários brasileiros. Ao unir cirurgia reparadora, atendimento multidisciplinar, fornecimento de insumos e capacitação profissional, a ONG busca transformar não apenas a condição clínica das crianças atendidas, mas também suas possibilidades de movimento, autonomia, autoestima e futuro”, afirma Leandro Gontijo.
Após consolidar o trabalho em Angola, a organização planeja expandir a atuação para outros países. A primeira missão no Camboja está prevista para 2027.