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Ainda temos o luxo de nos anular?

A cada período eleitoral, eu fico de olho no chamado ‘não voto’. O termo se refere àqueles que abrem mão do direito político de votar em alguém. Seja por não comparecer às urnas ou por optar pelo voto em branco ou nulo. 

Não quero aqui discutir qual é o melhor projeto político para o país, mas, simplesmente propor uma reflexão se ainda temos o luxo de nos abster do jogo político. Claro, o cenário não é nada favorável para quem tem um estômago fraco ou não quer desalinhar os chakras. 

O noticiário, a desinformação, a tal da polarização, as brigas irracionais entre parentes ou amigos. Tudo isto poderia justificar o não voto. Contudo, será que justifica mesmo?

Recordo-me dos tempos de universidade em que comparávamos a jornada brasileira para conquista dos direitos políticos com outros países. Aqui as coisas se deram de outra forma. 

Claro, olhemos para antes do período de 1964. Foi Getúlio Vargas que concedeu o voto às mulheres, ele só esqueceu o fato de ter colocado o país em um regime ditatorial. 

Votar é um luxo que foi concedido pelos políticos e depois retomado pelo povo brasileiro. Inúmeras pessoas morreram ou desapareceram nos tempos em que não vivíamos dentro de um cenário democrático.

A Constituição de 1988 garantiu a volta dos direitos políticos, a instituição de outros direitos como os sociais – todos têm direito à moradia, saúde e assim vai. E mesmo com tantas mobilizações e marcas na história brasileira, hoje, existem aqueles que simplesmente desistiram de se posicionar. Seria por medo? Por preguiça? Por raiva? Por nojo?

Entender a política brasileira não é um serviço para amadores. Conviver com as denúncias de corrupção também não é uma tarefa fácil, aqui poderia abrir para um outro debate, contudo, não me convém no momento, pois quero refletir sobre o grupo que prefere se anular perante as dificuldades que os cercam.

Como disse, não quero aqui defender ou apontar qual o projeto político seria melhor para o país. O fato é que são propostas muito diferentes para que o eleitor pense: “tanto faz quem vencer” ou ainda aquele pensamento clássico: “não interfere na minha vida”.

Os temas econômicos, por exemplo, ainda parecem distantes do brasileiro comum. Entretanto, a taxa Selic impacta diretamente na questão do endividamento das famílias, por exemplo. Por mais que o Banco Central tenha autonomia, o cenário político pode influenciar, uma vez que o presidente do BC é indicado pelo presidente do país e aprovado pelo Senado. Dois espaços em que o seu voto pode fazer a diferença.

Poderia dar inúmeros exemplos, como na saúde, educação, outros aspectos econômicos… Sim, toda a nossa existência está, de alguma forma, atrelada a um pilar dentro da política nacional, seja ela local ou federal. Quem vai definir melhor essa questão é a própria Constituição Federal. 

Então, se a sua vida depende de decisões políticas e vivemos um modelo representativo, como alguém ainda teria coragem de se abster de uma eleição?

Mais uma consideração importante, se você fizer parte do grupo que tem medo, você pode se posicionar e manter o silêncio. Nem todo mundo vai para as ruas se manifestar e está tudo bem, não é mesmo? Você também não precisa escolher um lado e passar a odiar as pessoas que estão do outro lado. 

A reflexão principal aqui é: ‘anular’ o voto é transferir a sua responsabilidade enquanto cidadão e o seu direito de escolha para outra pessoa, uma pessoa que você nem conhece. E aí, não vai adiantar passar quatro anos reclamando do país e do sistema político. 

Pergunta para quem se ausenta da eleição: você deixaria outra pessoa tomar as decisões fundamentais da sua vida por você?

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