
O apito final soou. A bandeira verde e amarela, que por semanas enfeitou ruas, janelas e rostos, agora parece mais pesada. O hexa não veio. A Copa do Mundo, que nos arrancou do sofá, que pintou nossas ruas de cores e uniu vizinhos em volta da televisão, terminou. O que ficou, foi o gosto amargo da frustração.
Mas é justamente aí que mora o convite mais profundo que a vida pode nos fazer.
Durante a Copa, vivemos algo raro: não era apenas o prazer de ver um gol, mas o significado de estar junto. As ruas foram pintadas. As crianças largaram os celulares para verem os jogos e trocarem figurinhas. Os jovens, que antes só se encontravam através de telas, estavam ali, com as mãos sujas de tinta, rindo, competindo, pertencendo. Como explica Jonah Berger no livro Contágio, certas experiências têm uma “moeda social” tão poderosa que nos tiram do isolamento e nos devolvem ao coletivo. Era a felicidade verdadeira em ação: aquela que não se compra, que não se baixa, que não se curte, mas que se vive.
E aí a Copa acabou.
A derrota veio, e, com ela, a frustração, o vazio do : “E agora?”
A psicóloga Susan David, autora de Agilidade Emocional, nos ensina algo essencial: a frustração não é um desvio do caminho da felicidade, ela é parte dele. Quanto mais tentamos suprimir o desconforto, mais ele cresce. A verdadeira saída não é ignorar a derrota, mas atravessá-la com significado.
Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido, mostrou ao mundo que a felicidade não pode ser perseguida diretamente. Ela é um subproduto de uma vida com propósito, com “porquês” claros. E o propósito muitas vezes nasce no terreno árido da adversidade. Foi justamente nos campos de concentração que Frankl percebeu algo impressionante: as pessoas que encontravam um motivo para continuar, como reencontrar a família ou cumprir uma missão, conseguiam suportar sofrimentos que pareciam insuportáveis.
Pense comigo, você acha que aquela tarde pintando a rua com meus vizinhos perdeu o valor porque o Brasil perdeu? Claro que não. O riso das crianças ao segurar o pincel continua intacto, o abraço coletivo no gol ainda aquece o peito, a sensação de pertencimento também permanece. A memória afetiva que construímos ali não depende do placar, ela depende do que vivemos juntos.
A neurociência confirmou que experiências que envolvem esforço, superação e conexão ativam o sistema de recompensa do cérebro de forma mais duradoura que prazeres passivos. A pintura da rua, o jantar em família, o piquenique no parque, a viagem com quem se ama, tudo isso gera registros emocionais que se consolidam como sentimentos positivos permanentes. Toda vez que lembramos, eles se reativam. A frustração do fim não os apaga.
A felicidade hedônica nos promete prazer sem dor, mas ela é frágil. É como a euforia de um gol: intensa, emocionante, inesquecível naquele instante… e passageira. Se a nossa felicidade dependesse apenas das vitórias, viveríamos presos a uma eterna sensação de falta. Afinal, assim como no futebol, a vida alterna vitórias e derrotas. Se nossa felicidade depende apenas das vitórias, estamos condenados à insatisfação permanente, porque a vida, assim como o futebol, alterna vitórias e derrotas.
Já a felicidade eudaimônica, a verdadeira, não depende do resultado. Ela depende do processo, do significado que damos às coisas, da conexão com as pessoas. Ela não acaba quando o apito final soa. Ela permanece nas memórias que construímos juntos e na certeza de que, no próximo ciclo, estaremos lá novamente. Porque ser brasileiro não é apenas torcer, é pintar a rua, é chamar o vizinho, é transformar o asfalto cinza em um abraço colorido.
A frustração da derrota não é o fim da história. É o começo de uma pergunta: o que você levou dessa experiência que nenhuma derrota pode tirar?
🛠️ Aplicação Prática: O Exercício do “Fim da Copa”
Assim como a Copa terminou, coisas boas terminam o tempo todo: férias, relacionamentos, fases da vida. A frustração do fim é inevitável. Mas você pode transformá-la em combustível. Aqui vai um exercício simples para aplicar já:
Passo 1 — O Inventário das Memórias (5 minutos) Pegue um papel e liste 3 momentos bons que você viveu durante a Copa (ou qualquer experiência recente que tenha terminado). Não pense no resultado final. Pense nos momentos: um abraço, uma risada, uma rua pintada, uma refeição compartilhada.
Passo 2 — A Separação (2 minutos) Ao lado de cada momento, escreva: “Isso não depende do resultado.” Porque não depende mesmo. A memória afetiva não é anulada pelo placar.
Passo 3 — A Ponte (5 minutos) Pergunte-se: “Como posso recriar esse tipo de conexão sem depender de um evento externo?” Se a Copa te lembrou da importância de estar com os outros, talvez a resposta seja: marcar um jantar no próximo sábado. Fazer um piquenique no domingo. Pintar a calçada mesmo sem Copa. Chamar os amigos para ver um filme.
Passo 4 — O Compromisso (2 minutos) Escreva uma frase começando com: “Mesmo sem a Copa, eu vou…” e complete com uma ação concreta para a próxima semana. Cole onde você possa ver.
A frustração do fim não é um ponto final, é uma vírgula. A história continua, e você pode escrever o próximo capítulo.
Bibliografia e Referências Consultadas
- DAVID, Susan. Agilidade Emocional: Como se adaptar às mudanças e transformar desafios em oportunidades. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.
- FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2015.
- SELIGMAN, Martin E. P. Felicidade Autêntica. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.
- BERGER, Jonah. Contágio: Por que as coisas pegam. Rio de Janeiro: Leya, 2014.
- DUCKWORTH, Angela. Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
- YALOM, Irvin D. O Carrasco do Amor. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2018.